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Entrevista com Jotacê de Freitas

“A obra de Cuíca de Santo Amaro tem uma importância histórica que tem ultrapassado as décadas. Sua personalidade tornou-se icônica como o símbolo da irreverência baiana.”
José Carlos Freitas – poeta e membro da Comissão Baiana de Folclore
Nascido na cidade de Senhor do Bonfim, sertão da Bahia, JOSÉ CARLOS FREITAS, mais conhecido como JOTACÊ, é formado em Pedagogia pela UNEB. Mas é como cordelista que este amante da cultura popular vem se destacando nos últimos anos. Seu folheto “Panvermina e Zabelê nas quebradas do Sertão” foi premiado nacionalmente no Concurso da Fundação Cultural em 2005. Sua obra é marcada por humor e crítica social, tendo em Cuíca de Santo Amaro um dos seus inspiradores. Nesta entrevista, o poeta fala um pouco de sua obra e da importância do mestre Cuíca para a Literatura de Cordel.
P – Quando começou seu interesse pela literatura popular?
Nasci na cidade de Senhor do Bonfim em 1964. Meu interesse pela literatura surgiu aos 15 anos ao ter uns versos elogiados por um poeta local. Conhecia o cordel através da minha mãe que comprava folhetos de Padre Cícero, Lampião e Bocage. Iniciei minha obra com versos livres tendo publicado 06 livros em que experimento concretismo, hai-kai e o ritmo do cordel. Somente em Salvador fui estimulado por um grupo de amigos a escrever cordel. Aceitei como desafio e escrevi folhetos que envolviam a situação de trabalho e fatos locais.
Ao ingressar no curso de Letras da UFBA em 1999, mantive contato com o PEPLP – Programa de Estudos e Pesquisas sobre a Literatura Popular e fiz um curso sobre contos faceciosos minsitrado por Prof. Doralice Alcoforado. Fiquei bastante surpreso com a importância dada a essas manifestações culturais entre as quais se incluía o cordel. Tornei-me bolsista da iniciação científica e tenho me dedicado até hoje a produzir, pesquisar e divulgar a Literatura de Cordel.
P – Além de poeta, que outra atividade você exerce?
Além do Curso de Letras, fiz graduação em Pedagogia na UNEB e exerço a função de arte-educador na EM do Pescador, em Itapuã, Salvador, com crianças de 6 a 15 anos.
P – Como você avalia a situação da produção da literatura de cordel hoje na Bahia?
Poucos poetas investem na carreira por não acreditarem num retorno econômico. Muitos aguardam apoio governamental para verem suas obras editadas, republicadas e divulgadas nas escolas. Por conta disso, em Salvador, poucos poetas publicam frequentemente, mas no interior cada cidade possui o seu poeta de cordel que publica mais esporadicamente. Além desses fatos, novos poetas buscam inovar na linguagem e na apresentação dos folhetos, unindo seu ritmo ao do ‘rap’.
P – A produção baiana tem algo de peculiar em relação à de outros Estados?
A produção a que tenho acesso tem em comum a contemporaneidade dos temas abordados e a aproximação com a linguagem mais coloquial. Ao contrário da maioria da produção nordestina que continua explorando os mitos da seca e a linguagem caipira. Para saber mais notícias sobre o cordel baiano visitem o blog: oficinadecordel.blogspot.com.
P – O seu folheto “Panvermina e Zabelê nas quebradas do Sertão” foi premiado nacionalmente no Concurso da Fundação Cultural em 2005. Qual a importância desse prêmio para a Bahia e que repercussão teve esse fato na sua carreira?
Foi importante para a Bahia devido à renovação que esse prêmio trouxe para a literatura de cordel local fazendo com que diversos poetas retirassem suas obras da gaveta. Houve pouca participação e divulgação em âmbito nacional.
Particularmente minha carreira foi impulsionada e passei a ser mais respeitado e admirado por colegas que até então não conheciam minha poesia, o que resultou em participação em diversos eventos na capital e interior para divulgar, debater e ensinar a fazer o cordel.
P – Qual a importância de Cuíca para o cordel hoje?
Cuíca de Santo Amaro é a maior referência nacional e internacional da literatura de cordel da Bahia. Depois dele vem Rodolfo Coelho e Franklin Maxado. Não estou falando de repentistas ou violeiros. A obra de Cuíca tem uma importância histórica que tem ultrapassado as décadas e sua personalidade tornou-se icônica como o símbolo máximo da irreverência baiana. Como poeta,Cuíca, sentia-se o defensor dos fracos e oprimidos, escrevia contra todos os que atingiam a população com medidas impopulares. Até hoje percebemos a atualidade dos seus versos devido a essa ligação direta que ele tinha com o povo.
P – Como a obra de Cuíca, a sua também se presta à contestação e à crítica de costumes. Na sua opinião, esse papel social da literatura de cordel suplanta o divertimento ou deve-se equilibrar o riso e a crítica?
A crítica de costumes é uma forma de rir de si mesmo em busca do debate, da reflexão e de uma amenização ou solução do problema. Toda a minha obra parte da realidade e, se minha realidade é cômica – se não fosse trágica, nada mais natural que eu brinque com isso, sublimando meus problemas e busque inspiração em Cuíca e em outros críticos mordazes da nossa sociedade como Gregório de Matos, Oswald de Andrade, Barão de Itararé e Nelson Rodrigues.
Quero que o divertimento venha em primeiro lugar, se a crítica for percebida fico feliz. Sou a favor do equilíbrio, apesar de, às vezes, os fatos nos deixarem muito louco, acho que o excesso de crítica pode transformar uma obra de arte em um simples panfleto político.

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